sexta-feira, 13 de maio de 2011

FRAGMENTOS COTIDIANOS I

NOTAS DE UM SOLITÁRIO CONTEMPORÂNEO

Antes de iniciar é necessário algumas considerações: tratando-se de um texto supõe-se uma interpretação, e no caso um sujeito interpretativo (pelo menos a partir de certas pespectivas estéticas). Eis que, por uma coincidência, ou contigência, ou desordem, esse texto seja lido por mais de um sujeito interpretativo. Não é dificil supor que essa sugestão traria mais de uma interpretação ao texto, ou seja, quantas possibilidades de leituras provocariam tantas condições e quadros interpretativos, cada um com sua teia de arames, histórias, cheiros e cores. Sem apronfundar o assunto, mas digno de constatação é que se cada sujeito têm uma interpretação possível, a partir de sua trama cotidiana, do mesmo texto, é possível entendermos esse texto sob uma pespectiva multidimensional, tensa, complexa e flexível (no sentido da efemiridade). Posto a não cristalização do texto, ou seja, de um sentido único e captável através de mecanismos universais, é possível sugerir a água como metáfora, de uma poça de água que flui, que forma ondas, e revelam cores que se modificam ao mover das águas, criam arco-íris após as chuvas, não são fixos, fluem (in)constantes. Das águas já vieram filosofias e mitos, de Heráclito a Narciso. Ora, se o texto depende de quem lê, assim também as poças de água dependem do olhar de quem as vê. A poça de água que eu enxergo, nessa perscpectiva, só existe com meus olhos nela refletidos. A pergunta é: o que seus olhos refletem quando lêem o texto do mundo? Nesse sentido a leitura é ampliada para todos os códigos simbólicos e não especificamente aos códigos gráficos, mas aos significados dos sonhos, das tristezas e das alegrias coletivas, compartilhados pelos sujeitos em suas condições de criadores e consumidores de significados sócio-culturais. Assim, assumo o exercício de considerar que cada leitura do mundo (de um fenômeno dentro de um contexto específico de significados) é uma recriação do vivido, uma transformação do que fomos um dia, pois a medida que olhamos para o passado nos encontramos cada vez mais mudados, tanto quem olha (se transforma enquanto no presente) quanto quem é visto (se transforma enquanto no passado). Se em cada leitura do mundo deixamos de ser para nos tornamos o que ainda não é, talvez seja possível imaginar que a nossa identidade não pode ser entendida apenas nos termos da imutabilidade e rigidez, mas adotando características mais provocadoras, fluída e flexível, transformando-se e ocupando espaços entre as lógicas disjuntivas e binárias.
Acho que me alonguei mais do que devia na introdução, de tal forma que me desviei do objetivo principal desse texto, que entendido como múltiplo pode ser interpretado de diferentes maneiras. Tais interpretações, por sua vez, são destiladas a partir de quem você é hoje e o que você foi no passado (talvez ainda até quem você se tornará a ser um dia por algum tempo). Ora, se o texto é proposto a múltiplos olhares, assim como cada poça de água quando alguem lhe debruça o nariz e se reflete no olhar, e ainda se cada olhar que interpreta esse texto foi, é e será diferente um dia, multiplicam-se as interpretações.
Portanto seja lá você quem for, ou foi ou será... se me ama, me amou ou me amará... me add ou me escreva:

carinhosamente,

solitariocontemporaneo@hotmail.com

P.s. por favor mandar fotos para agendar contatos (as mesmas não serão devolvidas)

Revista digital Encontros, nº 134 - out/2017
Seção de Correspondência Eletrônica

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