sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Do desamor...

Do amor
tanto já foi dito
pouco sabido
e nada mais cogito

tratemos do desamor...

Esse tornar-se zumbi
zumbi que anda, que come e se deita
que não tem graça de ficar sozinho
que não tem graça de acordar
que se perde em contínua (des)graça

Desamar é um convite comovente à dor
é acinzentar as paredes e as ruas
e desenhar em preto e branco as mesas do bar
é roubar o segredo triste da lua...

Eu desamo, tu desamas
todos nós desamamos

A gente já nem precisa mais falar baixinho
como se fosse palavrão: desamor
já estamos tao solitariamente cúmplices,
todos nós,
de tanto desamor
que nem é preciso muito rodeio para explicar

Basta sentir seu hálito implacável
que torna as tardes estéreis e insuportáveis
e as noites megeras infelizes
que se desfazem em manhãs sufocantes

é o que desama, desarma, destoa
desbota, desgarra, desnuda, desvela
desgruda, descola, desabotoa...

Desamor
(des)
amor....

domingo, 29 de janeiro de 2012

Caminhavam juntos...

Em dado momento deram-se as mãos

Nada foi dito
(era uma tarde quente e preguiçosa)

O mundo girava a medida que seus pés giravam o mundo
- uma esteira rolante que desvelava o horizonte

caminharam tanto que o sol se pôs...
de mãos dadas num silêncio tão bonito que enfim fez-se a noite

e o mundo girava sob seus pés
na monótona e rotineira sensação de mutação constante

Nada foi dito
(mas seguiram assim, dadas as mãos)

girando
girando
o mundo que lhes servia de cobertor

caminhavam e giravam juntos...

e até aqueles que estavam parados
(e que se debruçavam no parapeito das janelas)
sentiram o lento e triste mover do mundo
que girava ao tropar dos passos

Caminhavam juntos...
e como já foi dito: em silêncio
Eram nada mais que poesia sem palavras

caminhavam juntos em silêncio
...moinhos que giram o mundo

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Da ausência e da memória...

Acho que só dói

quando lembro...

quando é ausência...

quando vem e não está
(quando é e já não mais)

só dói quando é ausente

quando lembro...

é furta-cores e furta-mundos
(furta-pérola)

que quando vem (pois lembrança), já não mais está
(pois ausência)

pássaro que se entrega

Quando lembro....




acho que só dói
quando lembro...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

I

E então você se vê
como uma palavra
inscrita num poema breve,
imenso e inacabado...
O que você gostaria de dizer?
Como eu posso ler os lábios teus?
És palavra, sou palavra
sois palavras...

II

Alguns se inscrevem como leis
alguns como se fossem dogmas
outros pretendem redigir o texto, burocraticamente

III

Eu... me inscrevo como poesia
(como sujeito-poema)
e eu te leio em poesia
e nós somos poesia, meu bem
pois nossas palavras se inscrevem no texto da vida
como poesia...
e nós somos palavras
és palavra, sou palavra
(e também silêncio-palavra)

IV

Viver, pois, no mesmo texto é falar da mesma coisa
com palavras diferentes
assim, somos palavras diferentes de um poema
que fala da mesma coisa

V

Pois bem, meu bem
Falemos de amor...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

...dos enigmas

Enigmas não se resolvem
se dissolvem...

o enigma de uma boca não é o beijo

Há enigmas no café da manhã
e nos bolsos da calça

Um dia ela me disse
com um ar de esfinge à meia-luz:

"interpreta-me e me devora"...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

FRAGMENTOS COTIDIANOS I

NOTAS DE UM SOLITÁRIO CONTEMPORÂNEO

Antes de iniciar é necessário algumas considerações: tratando-se de um texto supõe-se uma interpretação, e no caso um sujeito interpretativo (pelo menos a partir de certas pespectivas estéticas). Eis que, por uma coincidência, ou contigência, ou desordem, esse texto seja lido por mais de um sujeito interpretativo. Não é dificil supor que essa sugestão traria mais de uma interpretação ao texto, ou seja, quantas possibilidades de leituras provocariam tantas condições e quadros interpretativos, cada um com sua teia de arames, histórias, cheiros e cores. Sem apronfundar o assunto, mas digno de constatação é que se cada sujeito têm uma interpretação possível, a partir de sua trama cotidiana, do mesmo texto, é possível entendermos esse texto sob uma pespectiva multidimensional, tensa, complexa e flexível (no sentido da efemiridade). Posto a não cristalização do texto, ou seja, de um sentido único e captável através de mecanismos universais, é possível sugerir a água como metáfora, de uma poça de água que flui, que forma ondas, e revelam cores que se modificam ao mover das águas, criam arco-íris após as chuvas, não são fixos, fluem (in)constantes. Das águas já vieram filosofias e mitos, de Heráclito a Narciso. Ora, se o texto depende de quem lê, assim também as poças de água dependem do olhar de quem as vê. A poça de água que eu enxergo, nessa perscpectiva, só existe com meus olhos nela refletidos. A pergunta é: o que seus olhos refletem quando lêem o texto do mundo? Nesse sentido a leitura é ampliada para todos os códigos simbólicos e não especificamente aos códigos gráficos, mas aos significados dos sonhos, das tristezas e das alegrias coletivas, compartilhados pelos sujeitos em suas condições de criadores e consumidores de significados sócio-culturais. Assim, assumo o exercício de considerar que cada leitura do mundo (de um fenômeno dentro de um contexto específico de significados) é uma recriação do vivido, uma transformação do que fomos um dia, pois a medida que olhamos para o passado nos encontramos cada vez mais mudados, tanto quem olha (se transforma enquanto no presente) quanto quem é visto (se transforma enquanto no passado). Se em cada leitura do mundo deixamos de ser para nos tornamos o que ainda não é, talvez seja possível imaginar que a nossa identidade não pode ser entendida apenas nos termos da imutabilidade e rigidez, mas adotando características mais provocadoras, fluída e flexível, transformando-se e ocupando espaços entre as lógicas disjuntivas e binárias.
Acho que me alonguei mais do que devia na introdução, de tal forma que me desviei do objetivo principal desse texto, que entendido como múltiplo pode ser interpretado de diferentes maneiras. Tais interpretações, por sua vez, são destiladas a partir de quem você é hoje e o que você foi no passado (talvez ainda até quem você se tornará a ser um dia por algum tempo). Ora, se o texto é proposto a múltiplos olhares, assim como cada poça de água quando alguem lhe debruça o nariz e se reflete no olhar, e ainda se cada olhar que interpreta esse texto foi, é e será diferente um dia, multiplicam-se as interpretações.
Portanto seja lá você quem for, ou foi ou será... se me ama, me amou ou me amará... me add ou me escreva:

carinhosamente,

solitariocontemporaneo@hotmail.com

P.s. por favor mandar fotos para agendar contatos (as mesmas não serão devolvidas)

Revista digital Encontros, nº 134 - out/2017
Seção de Correspondência Eletrônica

domingo, 17 de abril de 2011

...do silêncio

Não me calo pela falta de dizer
afinal o silêncio não é feito de não-ditos
e o não-dito não é mais que o dito ainda não falado
pois se não o é, é pelo que não foi
mas não pelo que nunca será

Não me calo pela falta de dizer
mas calo pelo muito que falo em silêncio
me calo pelo falar às avessas

Se tanto eu não falasse aqui por dentro
talvez até dizer-te-ia algumas coisas
mas meu silêncio é cheio de coisas que te digo
mas não te disse porque já disse tanto

ora, meu bem
fico quieto pelo excesso
pois se muito eu lhe disser
ainda é pouco comparado ao não-dito

que lhe diz
pelo silêncio
tantas coisas...

tantas coisas...
tantas coisas, meu bem
tantas coisas...

tantas coisas...